9.5.05

luz verde

If I could stay...
Then the night would give you up
Stay... and the day would keep its trust
Stay... and the night would be enough

Faraway, so close

Stay... then the day would keep its trust
Stay... with the demons you drowned
Stay... with the spirit I found
Stay... and the night would be enough

U2

Posso atravessar? Mais alto, sabes bem que daqui não te ouço.

8.5.05

pode alguém ser quem não é?

E depois? Conversa, instrospecção, esperanças de mudança, desilusões, é suposto acreditar que?

aqui e agora

Fugas e compulsões. Defeitos, faltas e incapacidades. Dúvidas, medos, bloqueios. Como toda a gente? Talvez...
Preciso de me descentrar e assumir o radicalismo destas palavras:

«Só o presente existe. Ou sou feliz hoje, ou não o serei nunca. Ou trabalho hoje, ou nunca trabalharei. Ou vivo hoje, ou serei apenas um morto que sonha e que recorda.»

José Luís Martín Descalzo

7.5.05

fora de horas

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca


A poesia tem-me feito falta. Não gosto da minha vida em prosa e nunca achei graça às narrativas fechadas.

6.5.05

filosofia marreta


It's not that easy bein' green;
Having to spend each day the color of the leaves.
When I think it could be nicer being red, or yellow or gold-
or something much more colorful like that.

It's not easy bein' green.
It seems you blend in with so many other ordinary things.
And people tend to pass you over 'cause you're not standing out like flashy sparkles in the water- or stars in the sky.

But green's the color of Spring.
And green can be cool and friendly-like.
And green can be big like an ocean, or important like a mountain, or tall like a tree.

When green is all there is to be
It could make you wonder why, but why wonder why?
Wonder, I am green and it'll do fine, it's beautiful!
And I think it's what I want to be.

Kermit, The Frog

changing lanes

Anunciam-se dias de grandes mudanças na blogosfera: o mercuriocromo fartou-se de estar fechado no frasco de vidro com rolha de cortiça e resolveu sair à rua.
Serão dias de transformações intensas, muito verde e muita primavera à roda destas linhas.
(e muito provavelmente, poucas horas de sono, que isto de se decidir mudar de template e ser uma maria-perfeccionista dá mais trabalho do que julgam!)
Aceitam-se críticas e sugestões!

3.5.05

banal extra

Tenho andorinhas pretas no beiral das minhas cartas.
Sete e sete são catorze com mais sete vinte-e-um...
Muito, pouco, nada?

movie quote (1)

'A vingança é uma forma de luto preguiçosa.'

Não sei se não será exactamente o contrário: uma forma de luto apressada, que por não deixar morrer prefere matar noutro lado.
Estar de luto, para mim, não dá espaço à vingança. Deixa-se morrer um bocadinho de nós com quem perdemos e daí se renasce, pé ante pé, aprendendo a suportar a ausência e a ouvir o silêncio. Uma outra forma de amar?

1.5.05

coeur, fais ton chemin

Esta música deixa-me sempre a sorrir. Venham de lá esses momentos de desesperança e é só carregar no play! Brindo ao mês que terminou com um fim-de-semana fantástico, e a um novo mês que começa, quem sabe a um novo capítulo...

Coeur, tu est tellement fou
Tais-toi, mon coeur perdu

Je n'ai plus rien
Q'un seule désir

Laisser mon rêve
d'amour partir

Viens, mon petit bateau
Flotte, comme un berceau

Je veux seulement oublier
Emballe-moi sous les nuages
Doucement vient le soleil
Bonheur après l' orage

d'Amour
Toujours
Les jeux
d'Amour

Coeur, fait ton chemin
Oublie, tous les chagrins

L'Amour est beau
Il est partout

Il faut chercher
Rêver, sourtout

Viens, encore une fois
Prends moi dans tes bras

Je veux seulement oublier
Emballe-moi sous les nuages
Doucement vient le soleil
Bonheur après l'orage

in Cinema, Rodrigo Leão

29.4.05

o abraço que ficou por dar...



Lost in translation?

28.4.05

mezinhas

Há por aí alguma receita milagrosa que cure corações pequeninos de tão apertados?
Hoje sinto-me triste.

eu, eu e EU

Não tenho um gosto especial por Jovanotti, mas sempre gostei de ouvir esta expressão em italiano, dita devagarinho, com as sílabas todas bem abertas: L’OMBELICO DEL MONDO.
O umbigo do mundo é quase sempre confundido com o nosso próprio umbigo: os nossos gostos, os nossos interesses, as nossas expectativas, os nossos futuros e, sobretudo, as nossas necessidades. Olhamos o mundo de fora para dentro, centramo-nos no que simplesmente nos dá gozo e deixamos cair por terra a dimensão do outro. É uma espécie de hipnose em que espiralamos à volta do nosso umbigo, na esperança de que a satisfação de necessidades consiga transformar-se em verdadeiro querer. Conseguirá?

27.4.05

estupidamente a correr

Porque sim.
Porque é suposto.
Porque conhecer muita gente, fazer muitas coisas, visitar muitos sítios, ouvir muita música variada, ler imensos livros, ver todos os filmes e escrever muitíssimos emails chega quase a parecer norma. Porque a correria diária é um culto. Uma forma de estar instituída e xenófoba.
Se não corro não aproveito. É preciso encher os dias e não ter uma agenda é pecado.
Hoje cheguei a casa e dei por mim a pensar (com preocupação, note-se) que não tinha nada combinado para esta noite.
Envergonho-me de tamanha estupidez.
Quero voltar a gozar o silêncio e lembrar-me que posso ir à janela simplesmente olhar para as estrelas.
Porque sim e sem hora marcada.

21.4.05

até já

Vou viajar.
Escrever estas duas palavras já me arranca um sorriso.
Fechar os olhos e imaginar-me num qualquer sítio outro faz-me sonhar.
Ao longo dos anos tenho aprendido (com esforço, confesso...) a diminuir a minha bagagem. Desta vez vou recheada e levo muito pouco de meu: o entusiasmo da companhia, um guia emprestado por mãos de bem-querer, um dicionário, um mapa que chegou pelo correio, imagens fugazes de uma viagem feita, palavras de quem já deambulou por aqueles lados, a máquina fotográfica esquecida lá por casa e esta frase:

"Peculiar travel suggestions are dancing lessons from God."

20.4.05

a Tua vontade

Que Bento XVI seja, para além da polémica, para além da ortodoxia que Joseph Ratzinger simboliza, de facto, benedictum.

19.4.05

parodoxal, eu?

Sempre gostei de ser surpreendida, nunca achei graça a ser apanhada de surpresa.
(sinto que acabei de descobrir o grande segredo da minha vida.)

diz-me o que lês, dir-te-ei quem és

Quando a leitura deixa de ser só fruição e passa a fazer parte do quotidiano profissional, sinto que tenho uma desculpa e posso respirar fundo e acreditar que ainda há esperança para a minha sanidade mental.
Num micro-universo que não chega a duas semanas, os pratos do dia foram putos a fumar charros como entrada, seguidos por famílias multiproblemáticas, psicologia do adulto e do idoso à sobremesa e uma terapia narrativa da ansiedade a acompanhar o café.
Sou, literalmente, um odre de inconsciente(s).

18.4.05

silly me

dormi mal. tenho frio. vesti-me de preto. estou a fazer coisas chatas desde que acordei. sinto-me incapaz de manter uma conversa com nexo. quero uma montanha, uma casa, uma lareira, uma chávena de chá e amor à discrição.

17.4.05

primeiro pensamento do dia

Depois de uma GRANDE desilusão regeneramos a capacidade de nos deixarmos surpreender outra vez. Parece um efeito lifting e é simplesmente BOM.
(Será que as desilusões fazem bem à pele?)

15.4.05

dúvida existencial

Escrevo menos porque ando feliz?

13.4.05

flower power

Hoje sinto-me pétala.

Menina flor, menina flor, menina flor,
Menina flor, menina flor, menina flor
Mulher, menina flor, amor, primeiro amor,
És o despertar de uma canção
Que adormeceu no coração,
E hoje vê o amor chegar, o amor cantar
Mulher, menina flor, amor, primeiro amor,
És o despertar de uma canção
Que adormeceu no coração,
E hoje vê o amor chegar, o amor cantar

Luiz Bonfá - Stan Getz

12.4.05

boa noite

De cada vez que me acho senhora da verdade sou desarmada.
De cada vez que tenho a presunção de saber tanto aprendo que sei coisa nenhuma.
E sorrio ao pensar que é convosco que vou trilhando os meus passos em volta, na vertigem boa de um trapézio com rede.
Do muito pouco se faz nascer a intimidade que preenche os dias... basta querer, e querer só, às vezes também basta.

7.4.05

amor aos pedaços

Causa-me um certo arrepio na espinha esta dita loja de doçaria amorosa.
Enamoramento via garfada de um chiffon de chocolate ou paixão rodeada de cerejas cristalizadas?
Despedaçam-se batimentos acelerados entre o chantilly que teima em ficar no canto dos lábios e a certeza de um consolo gástrico com duração limitada.

5.4.05

30 anos

Dificilmente juntaria duas pessoas tão diferentes.
Preto/Branco. Pessimismo/Optimismo. Silêncio/Ruído. Medo/Aventura. Baez/Beatles.
Mais dificilmente ainda acreditaria na cumplicidade do gesto, na troca de olhares, nos mimos e gargalhadas diárias.
Muito dificilmente deixarei de acreditar no amor... e a culpa é vossa!

4.4.05

estórias em pijama

Pode ser a t-shirt mais velha da gaveta, umas calças de flanela grossa, de preferência xadrez, ou um conjunto oriental, de seda suave que escorrega na pele.
Há noites infinitamente românticas que pedem bordados e transparências ou o eterno preto. Há os básicos imprescindíveis da women secret e a doçura de um empréstimo seis tamanhos acima do nosso...

2.4.05

escada acima, escada abaixo

Reduzo-me à fragilidade que não gosto de assumir: dormi mal e acordei pior... os joelhos não me têm dado descanso.
Talvez rifá-los...

1.4.05

coisas de outros mundos

Sou, definitivamente, um bichinho de hábitos.
Temos conversado todos os dias.
Temos partilhado inquietações com a leveza de quem ainda está longe de se conhecer.
Tem sido, simplesmente, bom.
Hoje não apareceste... e eu senti a tua falta.

brasil brasileiro

chico_elis_tom_maria rita_caetano_adriana_djavan_marisa_joão gilberto_vinicius_toquinho... chegaram hoje ao meu pc.
E eu passei o dia assim :)

31.3.05

privilégios de ecrã

Bom, bom, era mudar de wallpaper consoante os humores do dia.

asas

As asas feitas de prata de chocolate que me deixaste à cabeceira ofereceram-me o primeiro sorriso da manhã.
Continuo a acreditar em anjos.

30.3.05

eyes wide shut

Deixar-me surpreender. Sem medos. De olhos bem abertos para um dia-a-dia que pode ser tudo o que eu quiser e onde a rotina só entra quando os meus olhos teimam em permanecer fechados.

25.3.05

raízes

Nos próximos dias vou estar aqui...

Serpa, Rua dos Fidalgos (é a primeira porta à esquerda, mesmo em frente à barbearia)

...e prometo que vou tentar regressar com um destes senhores na mala!

cenas

Pronto... confesso... tive um ataque de 'gaijice' aguda e sou a feliz possuidora de riscas tricolores pelo cabelo fora!
Este ano, mudar de visual é o mais aproximado de ressurreição que consigo tirar da cartola... and it's a start!

P.S. - O piercing no nariz ficou outra vez adiado, para gáudio de um senhor que eu cá sei...

24.3.05

pequenos prazeres

- o cheiro da pele no verão
- o ruído do café a subir numa Bialetti
- andar descalça
- a maciez dos lençóis nas minhas pernas nuas
- abrir um livro pela primeira vez
- deixar a areia da praia escoar-se devagarinho pelas mãos
- perder o olhar numa lareira acesa
- comer melancia
- encher os pulmões numa cidade desconhecida
...

23.3.05

22.3.05

elixir matinal

Dias úteis
às vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidades
no percurso de um só dia
Dias úteis
são tão frágeis, as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?
Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente
transparente
quem a não receberia?
Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis
Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudência
fazem os prazeres do dia
Dias raros
como os ares, Rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?
Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas
cristalinas
quem as não perseguiria?
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros

Pela voz da Manuela Azevedo a poesia do Sérgio, um lenço azul forte, um sorriso e as tuas palavras.

20.3.05

quando é que se cumpre uma vida?

(inquietação metafísica depois de Mar Adentro e Million Dollar Baby em menos de 24 horas... and still overwhelmed)

o deus das pequenas coisas...

...resolveu entrar de mansinho e deixar-se ficar.
O filme de ontem à noite: imenso na crueza com que se perspectiva a vida.
O choro guardado aí dentro que deixaste vir.
As horas que estivémos no tapete da sala a conversar sobre as nossas vidas, sem rodeios, sem defesas, com a sinceridade boa de quem se dá a conhecer e nem repara que o chá já está frio.

18.3.05

Spice Imperial

Fiquei na dúvida se o devia espalhar pelas minhas gavetas de roupa ou deixá-lo ao acaso lá por casa, com sabor a todas as viagens que ainda não fiz: canela, cravinho, baunilha e laranja numa chávena quente de imagens.
Recomendo!

because it's Friday!!!

Ladeira da preguiça
letra e música: Gilberto Gil (1971)
A voz, essa só mesmo a da Elis!

Essa ladeira
Que ladeira é essa?
Essa é a Ladeira da Preguiça

Preguiça que eu tive sempre
De escrever para a família
E de mandar contar pra casa
Que esse mundo é uma maravilha
E pra saber se a menina já conta as estrelas
E sabe a segunda cartilha
E pra saber se o menino já canta cantigas
E já não bota mais a mão na barguilha
E pra falar do mundo, falar uma besteira
Formenteira é uma ilha
Onde se chega de barco, mãe
Que nem lá
Na Ilha do Medo
Que nem lá
Na Ilha do Frade
Que nem lá
Na Ilha de Maré
Que nem lá
Salina das Margaridas

Essa ladeira
Que ladeira é essa?
Essa é a Ladeira da Preguiça

Ela não é de hoje
Ela é desde quando
Se amarrava cachorro com linguiça

17.3.05

crepuscular

dive for dreams
or a slogan may topple you
(trees are their roots
and wind is wind)

trust your heart
if the seas catch fire
(and live by love
though the stars walk backward)

honour the past
but welcome the future
(and dance your death
away at the wedding)

never mind a world
with its villains or heroes
(for god likes girls
and tomorrow and the earth)

E. E. Cummings

16.3.05

...moi non plus

Tu étais la condition sine qua non de ma raison.

Serge Gainsbourg

15.3.05

here comes the sun

Voltei à terra. Para o melhor e para o pior, com a certeza de que o sofrimento me molda o gesto e o olhar.
Andei daqui para ali, para acolá, acreditei na verdade do amor, investi, resisti, insisti? Quem sabe...
Sinto-me profundamente cansada de estar triste e sem norte.
Hoje acordei com sol na janela do meu quarto. Arranquei-me devagarinho da cama e decidi viver.

10.3.05

tiptoeing

baixinho, quase em sussurro, pela vida fora...
há dias em que me sinto bem assim,
há outros em que me apetece desistir.
um dia depois do outro_ um dia depois do outro_um dia depois do outro_
on and on and on and on and on...

8.3.05

terra dos sonhos

se contar até 10 muito devagarinho desaparece a irritação...
se a primeira palavra que escrever neste papel começar por P é porque estou perdida...
se subir as escadas antes do elevador chegar o dia vai correr bem...
se passarem duas músicas do Joshua Tree na rádio arranjo bilhetes para o concerto...
se não tocar em chocolates até ao final do ano ela vai ficar boa...
se fechar os olhos com muita força a dor desaparece...
se na terra dos sonhos nos voltarmos a cruzar, o feitiço quebra-se?
...

7.3.05

detesto domingos

Acordo sempre com a sensação de que estou a começar o fim-de-semana... e é mentira.
A leitura do Expresso já vai a meio e consequentemente, sobra-me para este dia o pior do pior...
Não vale a pena comentar a qualidade dos programas de televisão de domingo à tarde...
Como sempre demasiadas porcarias ao lanche...
Os serões são angustiantes com a visão sahariana da semana que se aproxima...

4.3.05

Twixters

Foi a descoberta do dia - uma palavra nova para uma atitude que conheço bem...
A reportagem completa saiu na Times de 16 de Janeiro e intitula-se:

TWIXTERS -- Grow Up? Not So Fast
Meet the twixters. They're not kids anymore, but they're not adults either. why a new breed of young people won't - or can't - settle down


"It appears to take young people longer to graduate from college, settle into careers and buy their first homes. What are they waiting for? Who are these permanent adolescents, these twentysomething Peter Pans? And why can't they grow up?"
...

"Jeffrey Arnett, a developmental psychologist at the University of Maryland, favors "emerging adulthood"to describe this new demographic group, and the term is the title of his new book on the subject. His theme is that the twixters are misunderstood. It's too easy to write them off as overgrown children, he argues. Rather, he suggests, they're doing important work to get themselves ready for adulthood. "This is the one time of their lives when they're not responsible for anyone else or to anyone else," Arnett says. "So they have this wonderful freedom to really focus on their own lives and work on becoming the kind of person they want to be." In his view, what looks like incessant, hedonistic play is the twixters' way of trying on jobs and partners and personalities and making sure that when they do settle down, they do it the right way, their way. It's not that they don't take adulthood seriously; they take it so seriously, they're spending years carefully choosing the right path into it."
...

"Maybe the twixters are in denial about growing up, but the rest of society is equally in denial about the
twixters. Nobody wants to admit they're here to stay, but that's where all the evidence points."

...

poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos.

Alexandre O'Neill

A minha lista desta semana é ainda menos original:
- medo de adormecer
- medo de sonhar
- medo de acordar
Et voilà!

3.3.05

Glorious Britain

Na instituída terra da snobeira há quem faça de tudo e se sinta bem por isso!
Mudar papel de parede, pintar a casa, lixar o chão, envernizar, arranjar móveis, tratar do jardim, coser à máquina, reinventar funções para as velharias, estofar sofás... vale tudo na moda saudável do Do It Yourself.
Os manuais de DIY enchem prateleiras das livrarias, os programas de televisão com dicas sucedem-se e as pessoas aderem a este conceito tão simples do faça você mesmo.
Esta moda só há pouco começou a chegar a Portugal, muito ao nosso jeito distante de apreciar, achar piada e nunca nos atrevermos a meter as mãos na massa, porque pode não ficar bem ou o que é que os vizinhos vão dizer se me virem de fato-de-treino velho a mudar os rodapés?
Eu, que não passo de uma aprendiz de bricolage e ainda não sou possuidora da minha própria home sweet home, limito-me a investir estoicamente num mísero tapete de esmirna...

2.3.05

"I DON'T NEED A LOGO"

É o que diz a camisola que hoje trago vestida: branco no preto.
Gosto dela, mas fiquei a pensar se em mim, esta frase será pleonasmo ou paradoxo...

incompletude

'A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois...'

Sérgio Godinho

...não disseste o que o meu coração queria ouvir.
Acho que chegou a altura de o trancar e deitar a chave fora.

1.3.05

28.2.05

colo

Tratavas-me por ginja ou gata chalupa e tiveste sempre o condão de rir dos meus erros.
Ouvia-te a assobiar quando subias as escadas de jornal debaixo do braço e cigarrilha no dedo.
Vi todos os grandes épicos do cinema contigo e do alto dos meus oito ou nove anos aprendi a conhecer os grandes mestres aos primeiros acordes, sentada na poltrona de orelhas do escritório, enquanto tu passeavas de um lado para o outro, olhos cerrados e dedo em batuta.
Gostava de ter conversado mais contigo. Gostava que estivesses aqui para te contar as agruras dos meus dias maus, para ouvir as tuas gargalhadas desarmantes, para te explicar que às vezes é difícil ser feliz...

tão simples como

"Estar presente é chegar igual a si próprio e abrir-se ao outro."

CV

Sempre que abro esta pasta balanço entre a pontinha de orgulho (tão precisa nestes dias!) por algumas das experiências que já vivi e o terror de sentir que muito do mais importante 'não cabe' neste resumo de vida standardizado, neste traçar de um perfil que tão poucas vezes corresponde à realidade. Talvez o problema seja meu e esta dificuldade inata de lidar bem com expressões que não entendo: Curriculum vitae? Ainda se lhe chamassem listagem de actividades ou dados pessoais... Agora resumo da vida em formato europeu ou short version, de preferência sem ultrapassar as 2 páginas, é demais para a minha compreensão...

27.2.05

pé ante pé

Começo a ter esperança nos dias que aí vêm...
Depois das surpresas menos boas desta última semana, da desilusão a crescer mais do que algum dia pude imaginar, sinto que a vida do último mês e meio não foi a minha.
Quero deixar de ter medo de adormecer, quero acordar com vontade de abrir a janela e aproveitar cada dia-dom-dádiva, quero regressar à vida, quero mudar as regras do jogo e voltar a sonhar o futuro de todos os dias.

MUDA DE VIDA
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser,
Como um castigo que tu terás de viver


Humanos (António Variações)

25.2.05

african lullaby

Receber um cd de canções de embalar quando se já vai avançado na casa dos 20 e não há filhotes à vista dá que pensar...
Tive a sorte de ser presenteada por uma resistente a esse tipo de preconceito e desde então que os meus dias são deliciosamente embalados pela doçura de um canto quase telúrico.
Recomendo.

24.2.05

verdadeiramente

Nunca tinha sentido tão na pele a falta dela. E talvez por isso mesmo a tenha arrumado na prateleira secundária dos meus valores intocáveis.
Hoje deixei de ter dúvidas - é o valor maior.
Viver com verdade, em verdade, de verdade.
Ser de verdade.
Tudo o mais (que é verdadeiro) nasce apenas disto.

23.2.05

chorar emagrece...

...e não há quem me convença do contrário!
Tenho dito.

22.2.05

calvinices

Hoje deram-me este abraço...

...e eu quero mandá-lo de volta a todos vós, por serem os melhores amigos do mundo!

elegia a um amor ausente

Porque hoje é o primeiro dia do resto da minha vida...
Porque logo hoje resolveu chover...
Porque apesar dos pesares eu até gosto de Supertramp...

It's raining again
Oh no, my love's at an end.
Oh no, it's raining again
and you know it's hard to pretend.
Oh no, it's raining again
Too bad I'm losing a friend.
Oh no, it's raining again
Oh will my heart ever mend.
Oh no, it's raining again
You're old enough some people say
To read the signs and walk away
It's only time that heals the pain
And makes the sun come out again
It's raining again
Oh no, my love's at an end.
Oh no, it's raining again
Too bad I'm losing a friend.
C'mon you little fighter
No need to get uptighter
C'mon you little fighter
And get back up again
Oh get back up again
Fill your heart again...

e se de repente...

...um desconhecido lhe oferecer flores?

(ups... são gerberas em vez de tulipas brancas...)

21.2.05

do que eu preciso ou como a vida pode ser uma pescadinha de rabo na boca

AMOR... chá... colo... sorrisos... conversa... mimo... livros à cabeceira... humor... desafios... verdade... alegria... sonhos... água quentinha no duche... sol... viajar... abraços... música... AMOR...

18.2.05

em paz

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis num dia triste e a certeza de mais um sorriso no céu.
...

16.2.05

umbigo meu

Há notícias que nos desarmam. Pelo desconcertante, pelo inesperado, pela impotência, por nos apercebermos (apenas quando o mundo de outrem desaba mesmo ao nosso lado) que dedicamos demasiado tempo ao nosso umbigo.
E afinal, para quê?

15.2.05

nas Tuas mãos

cold cold water surrounds me now
and all i've got is your hand
lord can you hear me now?
or am i lost?
no one's daughter allow me that
and I can't let go of your hand
lord, can you hear me now?
or am i lost?
don’t you know i love you
and I always have
hallelujah
will you come with me?
cold cold water surrounds me now
and all i've got is your hand
lord.. can you hear me?
or am i lost?

Damien Rice

older chests

Sei que já me devia ter habituado à surpresa de ouvir da boca de outros aquilo que me vai passeando pela alma, mas confesso que continua a ser uma descoberta arrepiante...
A legenda dos meus últimos tempos devo-a a este álbum, à voz de
Damien Rice e ao fabuloso violoncelo de Vyvienne Long.


Some things in life may change
And some things
They stay the same

Like time, there's always time
On my mind
So pass me by, I'll be fine
Just give me time

14.2.05

para além das nuvens

Quando entrei em casa saltou-me imediatamente à vista: em cima da arca do hall, uma caixa de cartão com o meu nome no destinatário.
Lá dentro, um abraço forte de outro continente, em palavras, sons e sabores que me deixaram indecisa entre o sorriso que não me sai da cara e a comoção de me sentir compreendida.

Este, é só para ti...

a duas vozes


"Prefiro esquecer, esquecer-te até se preciso for, para viver como tu vivias, apreciando cada momento - sobretudo os dolorosos, pela lucidez que trazem como bónus - desta tão precária maravilha a que chamamos existência. Tantas vezes te aconselhei as virtudes do silêncio. Queria calar-te para te proteger, sim. Há poucas pessoas apetrechadas para a verdade - mesmo nós, quantas vezes não fechámos à chave umas verdadezitas mais cortantes para não nos magoarmos? Creio que me fazes - schiuuu! - assim, com uma vaga de embalo, sempre que a voz da minha consciência (seja lá isso o que for) sobe o tom para me acusar pelo que não te dei. Creio sem crer, como um condenado. Afinal de contas, não tenho nada a perder. Mesmo que os anjos não existam, as asas com que te vejo, sentada na beira da minha cama, do cume enlouquecido da minha insónia, ficam-te melhor do que todas as toilettes. Esforço a imaginação, estendo-a até aos teus dedos, mas não consigo mais do que um ligeiro roçagar de asas. São lençóis que agito, bem sei - mas não me concederás a graça de transformar a fímbria do meu lençol na ponta dos teus dedos?"

13.2.05

em bruto

Em pinho, carvalho, ébano, faia, choupo, cerejeira, pau-santo...
Simples ou nobres, claras, escuras, suaves ao toque, rugosas, robustas, toscas ou trabalhadas até à exaustão da forma. Com ou sem embutidos. Com verniz, enceradas, pintadas ou ao natural. Sóbrias, imponentes, românticas, minimalistas. Funcionais ou meramente decorativas.
Peças (i)móveis feitas gente de todos os dias.

9.2.05

quarta-feira de cinzas

Trauteei Sérgio Godinho, entristeci-me, pensei na vida, senti-me amada, fui à missa e decidi ser fénix.
Decidi (mais com a cabeça do que com o coração, que esse ainda é dos que usa manivela...) besuntar-me de mercurocromo, despojar-me das minhas angústias e dramas e assumir a minha lágrima fácil, a minha fragilidade disfarçada de constante fortaleza, o meu querer colo diário.
Sou assim e pronto. Sou eu, Joana de todos os dias em dias mais não do que sim, em dias talvez ou assim-assim. Sou o muito que de vós recebo. Sou riso e corpo. Sou olhos que piscam, lume aceso, amor tanto. Sou medo e certeza. Sou grito, teimosia e caminho. Sonho e sede.
Sou, apenas, vida.

20.1.05

the last post

Um bom coração é o que entende a alegria e a tristeza dos outros. É o que entende, por dentro, e tem coragem para lutar e sofrer pelo bem do outro. O bom coração vê o que é bom para o outro e faz tudo para o conseguir. O bom coração vê, entende, promove. E fica a bater sozinho, se a liberdade do outro o pedir.

Vasco Pinto Magalhães sj


(obrigada manel)

19.1.05

Lau

Reconheço-te na fotografia da salinha da entrada, no sorriso rasgado a preto e branco das tranças que usavas. Sempre foi a imagem mais bonita que tive de ti e onde fixava os olhos quando ia com os avós à Avenida. Recordo o cheiro daquela casa, os recantos imensos, as fotografias a crescerem à medida que os casamentos aumentavam e nasciam mais sobrinhos. Recordo a solidão mariana do abdicar e a tua solidão brilhante de fada perdida, sem terra nem rumo.
Hoje, agradeço-te o carinho com que sempre me trataste e a doçura que a insanidade nunca apagou.
Sinto que finalmente vais ter oportunidade de ser feliz.

18.1.05

Mnemosine ou o trevo de quatro folhas

Um medo bom a percorrer-me todo o corpo, chuva miudinha lá fora, final de tarde de Inverno e uma paisagem urbana familiar.
Na cassete gravada há pouco: sons de Adriana.
No ar que se respira, descoberta.
Momentos que são parte de mim, indeléveis, intocáveis, a minha história.
Momentos que procuro, momentos que construo, momentos em que tropeço sempre que deixo o fogo da vida arder cá dentro com mais força, em que me sinto simplesmente feliz.

paliativos

Há dias que deviam levar um empurrãozinho, ou chamar a Mary Poppins e fazer uma adaptação pessoal...
[Spoken]
In ev'ry job that must be done
There is an element of fun
You find the fun and snap!
The job's a game
[Sung]
And ev'ry task you undertake
Becomes a piece of cake
A lark!
A spree!
It's very clear to see that
A spoonful of sugar helps the day go down
The day go down-wown
The day go down
Just a spoonful of sugar helps the day go down
In a most delightful way
...

17.1.05

graças à civilização

«De resto, que importa bendizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhes seja negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol amável.»

Eça de Queirós

Não digo que Tormes seja o meu paraíso na terra, nem Jacinto o meu herói, mas que o Sr. José Maria não perde a razão, lá isso...

arco-íris

Porque a vida não é só a preto e branco,
in palombella rossa, o mote para esta semana:

"Lavar o olhar, muitas vezes não chega. Temo-lo toldado por preconceitos e por muita poeira acumulada. Vemos cada vez menos e sem variações de cores, de formas e de sentidos. Neste tempo de abatimento e de depressão colectiva, é bom termos os olhos dos outros para nos ajudar a ver de outro modo e a ver outras coisas. Com coragem, peçamos emprestado o olhar de quem confia, para reforçar em nós a confiança."

14.1.05

rearranjo vocabular ao cair da noite

...bolachinhas de laranja, manta, calor, casa, telefonema, café, conversa, cara lavada, sorriso, palavras, livro, carinho, pai, noite, pantufas, serena, cansaço, amor, sexta-feira, sonhos, futuro...

desarranjo vocabular

...amor, fio da navalha, raiva, medo, dor, pontinha dos pés, sussurrado, honesto, mentiroso, cobarde, honesto, cobarde, distância, ausência, vazio, medo, solidão, passos em volta, apoio, pilar, força, vida, recomeço, reencontro, amor, frágil, dor, cansaço, coragem, medo, tristeza, dúvida, futuro...

13.1.05

If (?)

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

Rudyard Kipling

Hoje acordei assim...

12.1.05

Quando

Quando eu for grande vou ter asas.
Vou fazer coisas de que gosto, vou viajar pelo mundo fora, vou sentir-me eternamente enamorada, vou sonhar todos os dias coisas impossíveis que acabarei por concretizar.
Quando eu for assim muito crescida, vou deixar o mau feitio do lado esquerdo da cama, todos os dias ao acordar. Vou arrumar o comodismo na caixa de sapatos forrada a papel xadrez. Deito para o cesto dos papéis a eterna insegurança e ponho o medo a arejar no estendal grande da varanda, com, pelo menos, três molas da roupa a segurar.
Quando eu for grande e for de noite e eu não me esquecer de ir lá fora espreitar as estrelas, tenho a certeza de que vou poder abrir a janela e voar.

11.1.05

Zeca Afonso

As tuas músicas acompanharam toda a minha adolescência. Ouvidas vezes sem fim, na ânsia de saber as letras mais com a alma do que com a memória, numa tentativa de perceber o outro lado da moeda, a liberdade merecida que a descolonização familiar nem sempre deixava ver. Descobri nos LP's da minha mãe (comprados às escondidas na Lisboa profunda do início dos anos 70) uma companheira das tuas melodias, das palavras tuas. Ando há dias com este Menino do Bairro Negro na cabeça. Porque espero com carinho o sol nascente de uma bebé quase a chegar, porque continuo a ver meninos com olhos de desamor, canto o pedacinho que sei... baixinho, muito baixinho...

Olha o sol que vai nascendo,
Anda ver o mar,
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar


Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão,
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Virá também

Negro,
Bairro negro,
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Se até dá gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti?

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

10.1.05

Cluedo


Não resisto...
Ainda só vou no dia 2 desta casa e já estou a fervilhar de ideias: que sítio melhor para um Cluedo em tamanho real, assim ao jeito das peças interactivas dos Fatias de Cá?
(Palpite do dia: O Dr. Brandão, com um candelabro, na biblioteca! Acertei?)

A Casa

Atrás de mim, uma janela com portadas de madeira. Em frente, uma porta quase tão alta como o pé direito desta sala, com puxadores de porcelana, bandeira, e trincos grossos de metal bem usado. As paredes foram pintadas há pouco tempo de amarelo-ocre, e o tecto, lá em cima-cima-cima, é branco claridade. Subi vários lanços de escada para cá chegar. Do jardim para a entrada, depois de ter estacionado o carro perto da cameleira pequenina, meia dúzia de degraus de pedra, arredondados e imponentes, como convém a uma entrada principal. Já cá dentro, duas voltas pela escadaria de madeira, até pisar este soalho que já não brilha, mas que me enternece de histórias. Perco-me todos os dias nestes corredores (ainda!). Descubro recantos novos e o calor enregelado que só as casas antigas conseguem manter. É aqui que vou passar grande parte dos meus dias, nesta estranha mistura de trabalhar num local que cheira a casa da avó.

6.1.05

Vontade

Queria fechar os olhos e não estar aqui sentada. Poder ouvir este concerto a flutuar por aí. Cortar as amarras, matar os medos, fugir de tudo o que me angustia e deixar-me levar pela música, pela companhia de sempre, por esta loucura de sentidos que me transforma com incrível facilidade, que me diz, todos os dias, o quão frágil não sei que sou…

5.1.05

Espera

Horas, horas sem fim,
graves, profundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um passáro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

A espera continua, para mim, a ser um mistério.
A espera quotidiana que parece nada acrescentar, a espera das horas que não passam, a espera passiva que as coisas se resolvam e ao mesmo tempo a espera de alguém que chega, a espera de um pôr-do-sol que comove, a espera com confiança, aquela que o dicionário baptizou de esperança.
Esperar o inesperado ou ‘inesperar-me’ de espera? Continuo confusa…

28.12.04

HUMANOS



Sempre tive um fascínio pela figura de António Variações. A provocação genuína da imagem, da postura, de uma música inconfundível.
A surpresa deste Natal foi este disco de inéditos em que já me viciei: Humanos

Quero é viver

Vou viver
Até quando eu não sei
Que me importa o que serei
Quero é viver

Amanhã
Espero sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer

E a vida
É sempre uma curiosidade
Que me desperta com a idade
Interessa-me o que está pra vir

E a vida
Em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir
Encontrar, renovar, vou fugir ao repetir

19.12.04

Percepções de mim

Tenho andado inquieta com uma característica muito minha, que sempre considerei mais feitio do que defeito, e que ultimamente me faz parar e pensar mais do que é costume.
É um misto de discrição e delicadeza-questional.
Se não te contam, não perguntes.
Se não partilham, não insistas.
Se a conversa te está a passar ao lado, não faz mal, é assim que as coisas são, e provavelmente não será para tu entenderes.
Toda a minha vida tenho agido assim. Por delicadeza, por não me querer intrometer, por não querer mostrar curiosidade metediça, por não querer incomodar, deixo passar momentos, deixo cair pessoas que amo com uma terrível sensação de coração apertado e dever cumprido. (porque todos sabem, obviamente, o quanto gosto deles e que estou sempre deste lado...)
Agora acordo tantas mais vezes a sentir-me perdida nesta minha postura correcta... e vazia.

17.12.04

Horas extraordinárias

Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da tua luz me dói
trabalhei sem dar pelo cansaço
horas extraordinárias,
foi um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando aparte o amor eu me vi só
atirando a moeda ao ar
diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar só
quando aparte o amor eu me vi só
atirando a moeda ao ar
diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

Sérgio Godinho

As sonoridades foram as do Irmão do Meio. As fantásticas vocalizações, da Sara Corte Real. As músicas, mais interventivas que românticas, únicas como sempre.
E assim foi a noite passada.

16.12.04

Sentir a dor dos pobres

«Pobres, sempre os tereis convosco» (Jo 12, 8). Quem disse isto, há 2000 anos atrás, sabia do que falava. Jesus Cristo conhecia demasiado bem o coração humano para arriscar a frase. No entanto, Jesus não disse que a pobreza era uma inevitabilidade. Bastaria que fosse diferente o tal coração humano.
Hoje, mais do que nunca, a pobreza não tem razão de ser. Nunca o mundo esteve mais capaz de combater a que existe, nem mais apto a prevenir a que há-de vir. Por isso, só a distracção comodista evita que nos interroguemos com João Paulo II: «Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se?» (NMI 50). Apesar da riqueza disponível, talvez estejamos no tempo da História que mais pobres gera. E todos sabemos como se fabrica a pobreza.
Coimbra. Esta cidade que se quer culta, esta cidade de classe média, farta e segura, razões tem, de sobra, para saber eliminar a pobreza. Coimbra, doa a quem doer, não só tem muitos pobres, como os esconde, decididamente.
Fazendo justiça a todas aquelas e a todos aqueles que, na Igreja e fora dela, dedicam as suas vidas ao serviço dos pobres, não podemos deixar de nos interrogar. 40.000 crianças vivem, em Portugal, na mais extrema das pobrezas. Quantas dessas crianças moram em Coimbra? A resposta é: não sabemos. A cidade tem várias dezenas de sem-abrigo. Quantos são? Não sabemos. Não sabem os técnicos que com eles trabalham. Não há estudos globais, nem estatísticas comparadas, nem trabalho coordenado. Há tentativas, pequenos passos e muita vontade de acertar por parte dos poucos samaritanos que se dispõem a parar nas margens da cidade. O certo é que Coimbra vive como se os seus pobres não existissem. Quando não os pode encurralar em guettos físicos (o Ingote, a Rosa) empurra-os para guettos simbólicos, escondendo-os e escondendo-se deles, fingindo que os vapores do perfume, a roupa de marca e os sorrisos de plástico para a imprensa cor-de-rosa hão-de apagar o cheiro, a imagem e a dor dos imigrantes sem papéis, dos velhos sem dinheiro, sem companhia e sem saúde, dos ciganos olhados de soslaio, ou dos sem-abrigo-e-sem-horizontes.
E os cristãos de Coimbra sabem? Não, não sabemos. Descansamos as nossas vagas inquietações nos ombros dos Vicentinos, dos Grupos Sócio-Caritativos, das Criaditas dos Pobres. Os miseráveis mais problemáticos entregamo-los à Caritas, à Abraço, à AMI, etc, etc. Os mais perigosos estão bem entregues aos técnicos e às polícias (porque, para o nosso olhar normal, ser toxicodependente, prostituta ou portador de SIDA não é fruto da pobreza, é CULPA!).
Deste modo descansa o Povo de Deus. Assim dorme em paz, como se não fosse «chegada a hora de despertar porque a salvação está mais próxima» (Rom 13, 11). Assim celebra, pacificado, a Eucaristia Dominical. Assim atravessa o Advento, ignorando o apelo à conversão que João Baptista continua a clamar no deserto: «Preparai os caminhos do Senhor» (Lc 3, 4). Assim se comove com o Natal do Menino Deus, que veio para que «todos tivessem a vida e a tivessem em abundância» (Jo 10, 10). Assim se aproxima da Páscoa. Assim percorre o ano todo, vibrando, aqui e além, com uma desgraça ou outra, acontecida longe, no mundo.
É porque somos uma Comunidade Cristã que nos dói mais esta realidade. Porque fazemos parte desta doce inoperância, desta confortável demissão. Não desconhecemos, contudo, os limites do problema. Sabemos que a resolução do mesmo não se confina ao adro das Igrejas, nem ao íntimo das consciências.
Com o mesmo vigor denunciamos a sociedade civil, aquela que se baba nas páginas de jet-set das nossas revistas e jornais, aquela outra que "apenas" cuida de si e dos seus, nunca se dignando baixar os olhos para a pobreza que resta. Esta sociedade civil confortada e próspera, em Coimbra e no resto do país, é o terreno em que germina o pecado da recusa em aceitar todo o outro como pessoa e da negação do bem comum, materializado na fuga aos impostos, na exploração do trabalho precário ou na mercantilização da natureza e dos seus dons.
Todos nós, uns e outros, crentes ou não, somos responsáveis pelas lágrimas dos pobres. Nas nossas mãos está o poder de mudar o rumo das coisas, o poder de corrigir as iniquidades do sistema económico que consentimos, as injustiças da Sociedade que construímos. Só que nada faremos enquanto andarmos distraídos com orações egoístas, com Natais comerciais, com cristianismos teóricos, com evangelhos de papel.
O contributo desta Comunidade, aflita com as suas próprias contradições, vai no sentido de ajudar a reflectir o sentido profundo do Natal: a partilha de humanidade que Deus quis fazer, tornando-se pessoa, pobre entre os pobres.

Texto de Natal da Comunidade de Acolhimento João XXIII

15.12.04

Estou em obras

ou... porque tenho eu um blog?
Agradecem-se comentários, sugestões e divagações metafísicas.
Muito obrigada.

10.12.04

(ir)responsabilidade social

Não gosto de representar a realidade. Não gosto de fingir uma postura que não a minha, um sorriso de ocasião, um ar de profissional oco. Não gosto de ter que fugir com os olhos para o céu, não gosto de não assumir as minhas responsabilidades, mas há muitas coisas responsáveis que não gosto de fazer. Não me sinto bem, não me fazem feliz, não me ajudam a ver o que de melhor posso dar a este mundo. Não gosto, não gosto, não gosto.

9.12.04

Hoje, Mozart toca baixinho

Faz hoje nove anos que partiste. De repente, sem avisar, sem despedidas, imprevisível como foste toda a vida.
Não me lembro de ter sentido outra dor tão funda. Passei da incredulidade à tristeza muita, senti-me abandonada, perdida, sem o porto seguro do teu cabelo cor de prata e do riso que se ouvia no fim da rua.
Tenho saudades e sei que continuas perto, a ensinar-me desta vez o verdadeiro significado da vida eterna.
Obrigada avô.

8.12.04

Saboreando palavras I

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder

Manuel Alegre

7.12.04

Enfim sós

Não vou ter tempo, eu sei que não vou ter tempo. São sete e meia e tenho que me despachar. Depressa. Se eu lhe desse mais um retoque ficava realmente perfeito... mas não vou ter tempo e é-me impossível acabar assim...

A luz começa a ser intensa, demasiado intensa para os meus olhos. A claridade devia manter sempre o mesmo tom áureo, que não fere a vista e consola o olhar. Não era preciso terem-lhe acrescentado tonalidades. Se o amarelo lhe assentava tão bem, porquê ir à procura de laranjas, vermelhos e ocres? Quem deseja a cada dia mais do que a satisfação quotidiana devia ser obrigado a praticar o estoicismo e a sábia postura da aurea mediocritas. Isso sim era um modo de vida! Mas de que me vale divagar, continuo a sentir-me incomodado com esta luz forte e a sabedoria dos clássicos foi há muito esquecida.

Custa-me tanto ter que pedir mais uma vez um adiamento! Prazos são prazos dirá Mme Claire, e eu, no fundo longínquo da linha telefónica, limitar-me-ei a sussurrar um... desculpe Mme... não torna a acontecer, mas a Mme compreende... parece que falta ainda qualquer coisa, não está bem como eu quero...

Está frio aqui dentro. Se aquela réstia de luz estivesse mais perto ainda me conseguiria aquecer, mas não há maneira. Desde que me lembro que sinto frio, um frio que tem cheiro a azul e gela. Não consigo perceber porque não há roupa suficientemente grossa para me aquecer. Meias de lã, camisa de flanela, camisola sobre camisola, galochas, casaco impermeável... nada, nada é suficiente.

Preciso de me concentrar. Talvez seja melhor folhear uns livros ou falar com mestre Pierre antes de deitar mãos à obra. Pode ser que descubra a falha. Será que estou a romancear uma imagem de homo habilis? Não acredito em heróis, mas sinto que este homem tem algo para dizer ao mundo... e eu, eu permaneço surda.

Estou só, como gosto de estar. Ela não insistiu na companhia, valha-nos isso! Sinto-me bem na solidão de ser apenas eu, um eu com frio, é certo, mas inteiro, de pé, olhar perdido na postura viril do homem que represento.

Prefiro deixar de lado a figura central e dedicar-me ao cenário. Sim, é isso: dedicar-me ao cenário é a solução. Não gosto de sentir este vazio e um cenário real rouba a solidão de uma imagem... humm...

É triste quando não nos escutam. Sobretudo porque todos gritam incessantemente certezas e dúvidas, medos, mágoas, mentiras, misérias mil que exigem ser escutadas. Hoje sinto-me mal por ser a primeira vez que grito. Talvez seja a estranheza do gesto ou quem sabe a ausência de uma resposta a um grito tão simples como: Tenho frio!

O mundo é teu nesse barco. Esse olhar que me lanças... se não fosse do cansaço que sinto diria que parece uma súplica... queres dizer-me alguma coisa Capitão? Sabes, gosto de te ver. Gosto da humilde altivez do teu gesto Alphonse... Capitão Alphonse soa bem não achas?

Talvez aquecesse se fumasse um pouco. Se o calor se negar ao corpo, sempre posso iludir-me com o fumo. Mil raios! Tenho os fósforos ensopados. Deve ter sido do temporal desta noite. Chuva não S. Pedro, basta o frio, que a chuva dá-nos cabo do serviço. Cala-te velho tonto... de que vale invocar santos ou deuses? Não são eles que traçam o nosso destino, esse, está noutras mãos...

O mar está-te dentro dos olhos, tens a faina no calejado das mãos e a luz tisnou-te a pele do rosto e desapareceu. Vês Capitão? Vês como vale a pena sermos exigentes?...
Amanhã bem cedo telefono a Mme Claire. Invento uma qualquer desculpa, não me importa. Nem sequer ouvirei os seus gritos, dir-lhe-ei apenas: falhei. É mentira e tu sabe-lo Capitão Alphonse. Hoje, aqui, contigo, acredito naquele verso que diz que «não há passos divergentes para quem se quer encontrar». A alegria de te perceber vivo naquilo que imagino é bem maior do que uma simples percepção da realidade, ultrapassa todas as obrigações. Além disso Alphonse, amanhã bem cedo, terei tempo de te vir acender o cachimbo...

6.12.04

Sweet dreams

Estou quase tão funguenta como a Amélia nas histórias de amor, e só tenho os olhos suficientemente abertos para deitar um olhar guloso aos cobertores da minha cama.
Viva as constipações! Viva o sol de Inverno! Viva a família Von Trapp e os sonhos bons...

When the dog bites,
When the bee stings,
When I'm feeling sad,
I simply remember my favorite things,
And then I don't feel, so bad.

Amélia, a fada cor-de-rosa

Amélia, a fada cor-de-rosa, adorava voar a grandes velocidades!
Montava apressada na sua vassoura, esquecia-se dos travões e voava veloz sobre os telhados das cidades.
Amélia gostava das luzes que via e espreitava às janelas sempre que podia.
Às vezes tinha medo que a vissem. Afinal era uma fada, daquelas que espalham grãos de lua pelas almofadas, e enchem todos os sonhos de magia.
Mas Amélia não era uma fada vulgar! Tinha um sapo de estimação e uma varinha de encantar, gostava de morcegos e de histórias de arrepiar.
Comia pipocas quando ia ao cinema e fungava tão alto nas histórias de amor, que as pessoas sentadas nas outras cadeiras julgavam que o filme era de terror!

Amélia... são horas de acordar...
Os sonhos voltam logo à noitinha, à hora em que as estrelas começam a dançar ao som da lua que canta sozinha.

5.12.04

Coisas Pequenas

'Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.
Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.
E a hora que te espreita
é só tua.
Decerto, não será
só a que resta;
a hora que esperei a vida toda,
é esta.
E a hora que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora.'

Madredeus

Nos últimos meses tenho andado mais atenta às coisas pequenas. Uma palavra de estímulo, um olhar cúmplice, uma mensagem a lembrar a nossa presença na vida dos outros, um rebuçado na secretária quando chego à editora depois do almoço, um bebé que cresce e nos enche já o coração, uma música, uma hora de sol num dia chuvoso, uma conversa, uma carta, um abraço apertado...
Tem piada que nos grandes catálogos de valor da humanidade, nada disto estará taxinomizado como coisas preciosas. Não se quantificam, não dão estatuto, não acrescentam nada à conta bancária, não asseguram um presente luxuoso nem um futuro brilhante. São, simplesmente, as coisas pequenas mais importantes da vida: AMOR.

2.12.04

U.K.

Cheguei da minha ilha com um motivo de comemoração: a queda do governo.
Cheguei da minha ilha triste por perceber que tanta gente nova e brilhante e cheia de vontade de trabalhar não pode regressar porque não tem a menor perspectiva de futuro.
Cheguei da minha ilha com um sorriso cheio de iluminações de Natal, cheirinho bom a biscoitos de gengibre, chocolate quente e pessoas que andam com cestos de compras atulhados... nas livrarias.
Cheguei da minha ilha com vontade de regressar e fazer alguma coisa de útil, nem que seja ser assim muito feliz.