31.10.04

Nariz pingão

"A sinusite é uma infecção da mucosa que reveste a «parede» dos seios perinasais, que são quatro: o seio maxilar, o seio frontal, o seio etmoidal e o esfenoidal. Surge geralmente dois ou três dias após uma vulgar gripe ou de uma infecção respiratória alta, devido às alterações inflamatórias, nomeadamente o edema, que se fazem sentir nestas situações na mucosa nasal."

Ainda tenho disponível a explicação pormenorizada da sinusite crónica, que tenho a honra de hospedar em permanência. Poupo-vos a isso, já basta o dia feio, a cabeça pesada e o nariz pingão. O que vale é que amanhã é feriado.

30.10.04

Crise de fé num dia de chuva

Anjos ou Deuses

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nós e compelindo-nos
Agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,

Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.

Ricardo Reis

Salvação


Hoje é o dia do teu aniversário e por ironia do destino estive um par de horas na igreja onde me despedi de ti. Asseguro-te de que não ouvi nada do que ali se disse. Perdi-me, dividida entre as músicas que não me apetecia cantar e a beleza única de S.Salvador. Fazes falta nesta terra.
Um beijo,
Joana

13.10.04

Seurat


Se olharmos com cuidado para este "Domingo à tarde na Ilha da Grande Jatte"conseguimos entrever a imensidão de pontinhos de cor que formam a imagem.
Aprendi o que significa pontilhismo com meninos de dez anos, na St.Michael's Church of England First School. Com a simplicidade única da idade, explicaram-me que era uma técnica muito fácil e mostraram-me as suas obras primas.

Hoje foi dia de saudade.

12.10.04

Descoberta do dia

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
(O soneto que só errado ficou certo)

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva

José Gomes Ferreira

7.10.04

One and one makes three


Tenho esta fórmula a bailar-me no espírito há semanas. Culpa inequívoca de um episódio da Dharma & Greg.
Um e um são três no milagre da vida que vejo crescer tão perto, na trindade una e plural que a minha fé procura, no amor diverso de duas pessoas em busca de um mesmo caminho.
Um e um são três.

23.9.04

Tila Hood, ou a versão portuguesa do Robin

A Otília é uma mulher de armas. Idade tão indefinida como a cor do cabelo (sempre apanhado num rabo de cavalo teimoso), trabalha com a força e genica de quem é simples, todos os dias, incansavelmente. Fala alto, refila muito, se lhe cai alguém no goto, é um anjo, uma querida, uma jóia, se há alminha que toma de ponta, rosna baixinho enquanto atira a bica ou o combinado para cima do balcão.
Hoje, (e tenho a dizer-vos que vou cometer uma inconfidência) ouvi uma conversa entre a Tila e um homem velho de rosto, encolhido na roupa muitos números acima do dele, acabrunhado nas nódoas de tinta e no pó que um servente carrega consigo. O homem que parecia avô de longa data, tinha pouco mais que 50 anos e a miséria estampada na alma. A Tila aconselhava, admoestava, dava exemplos de desgraça familiar, lembrava que era preciso afastar-se das más companhias, não beber, e ter sempre dinheiro que chegasse para a renda do quarto. Que não se apoquentasse com o dinheiro do almoço, pagava o patrão no final da semana, e quanto à bucha da manhã, era por conta dela, que a gente aqui com tantos ricos, também nos há-de sobrar alguma coisinha para quem precisa.
Escusado será dizer que poisei os talheres no prato...
Sobrar para quem precisa? Enquanto vivermos na ilusão de que é com as sobras que matamos a fome aos males do mundo, não há Tilas nem lições de humanidade que nos valham.

22.9.04

Que vergonha, Portugal!

Colocação Manual dos Professores Adia Resultados do Concurso para Final de Setembro

«Se dúvidas houvesse quanto à possibilidade de todos os professores ficarem colocados até 23 de Setembro, o último dia estabelecido pelo Governo para o início do ano lectivo, as piores expectativas confirmaram-se ontem. Depois de mais um prazo falhado, ao princípio da noite de ontem, a ministra da Educação, Maria do Carmo Seabra, anunciou que, afinal, as listas definitivas do concurso de docentes serão conhecidas "a 30 de Setembro, o mais tardar".
Em causa está o destino de cerca de 50 mil candidatos ao concurso de destacamento e afectação que, só então, saberão em que escolas vão dar aulas. Isto se o Ministério da Educação (ME) conseguir cumprir esta última fase, que não se afigura fácil. Depois de todas as falhas, a tutela decidiu abdicar do programa informático que estava a gerir as colocações de professores e vai avançar com o processo manualmente.»


in Público

21.9.04

Reflexões de fim de tarde


Porque se dormem sestas deliciosas nos jardins da Casa-Museu Rodin e porque hoje estou num destes dias: pensativa qb, venha de lá esse cigarro e serei definitivamente pessoana.

Outras margens

Durante anos bebi as palavras de Maria Rosa Colaço ao som dos Trovante, enquanto imaginava o meu destino-quase...

Outra margem

E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

Neste mês de Setembro, a margem espraiou-se: em olhares e culturas díspares que tenho novamente o privilégio de ensinar, nos sorrisos de quem me sente a falta e aponta o dedo com o carinho acusatório permitido apenas aos que amamos, nas margens brancas e cremes do papel de 70 ou 80 g que escolho laboriosamente para os livros que agora me nascem das mãos...
Margem-carinho-dom-papel-história.
Margem-fronteira-voo-encontro.
Margem de mim, margem em branco...
Só hoje reparei quanto gosto desta palavra feita espaço: MARGEM.
É bonita, não é?

4.9.04

Êxodos quotidianos


Bombaim, Índia, 1995 - Sebastião Salgado

Ao ver mais imagens de horror sobre a Ossétia, lembrei-me da exposição do Sebastião Salgado que vi há uns quatro anos no Parque das Nações. Fui sozinha e agradeço esse acaso fortuito da não-companhia pelas memórias vivas que as fotografias me deixaram. Gente. Gente que não incomoda porque está longe, que não maça porque não é notícia, que vai sofrendo porque acredita no remedeio de um quotidiano triste.
«Church Gate é a estação final da Western Railroad, que traz 2,7 milhões de passageiros para Bombaim todos os dias.»
A estação final?

Mudança(s)

Quando o meu amor parece não chegar para os remendos de ti, sinto-me perdida.
Hoje, baloicei na chuva forte de um enlace cuja música me enterneceu. Ouvi palavras sábias. Ri.
Demoro os olhos entre sopros de bolas de sabão. Recortes de tempo-saudade. Mudança.
Que o fim que te assusta seja início. Deixa-me apenas secar-te as lágrimas e aninhar-me no futuro nosso.

26.8.04

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".


Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Há dias em que me apetece transformar este poema em cartaz. Nesses dias, confesso que tenho muito medo das pessoas sensíveis...

Abaixo os silêncios de ouro

O Grito, Edward Munch: paradeiro desconhecido.

21.8.04

Jeux D'Amour

Foi na voz de Celina da Piedade que tive o prazer de ouvir esta música pela primeira vez. Sensual, desafiadora, química. Há quase um ano, com o TAGV cheio a abarrotar. Do balcão, na distância imprecisa das formas, Jeux d'Amour foi, para mim, a surpresa da noite.
Redescobri-a agora em 'Cinema', um álbum que aconselho e em que me viciei.

14.8.04

Back to business

Fim de férias. Comecei, recomecei, iniciei. Ontem foi sexta-feira 13 e o primeiro dia de trabalho. Sem rede. Uma folha em branco... literalmente falando.

7.8.04

Para ti



Só para te dizer que quero saborear Maçãs de Junho durante todo o ano... durante toda a vida...

"És a estrela da alvorada e a madrugada junto ao cais
És tudo o que eu vejo em ti, és a alegria e muito mais
És a minha maçã de Junho, és o teu corpo e o meu
Amo-te mais que à vida, que a vida sem ti morreu
Amo-te mais que à vida, que a vida sem ti morreu

És a erva perfumada, debruada a girassóis
O trago do café quente nas manhãs entre lençóis
És a minha maçã de Junho e a minha noite de Verão
Anda, vem comigo, vamos, dá-me a tua mão
Anda, vem comigo, vamos, dá-me a tua mão

És o encontro na estrada, és a montanha e o pôr do sol
O vinho bebido em festa, és a papoila e o rouxinol
És a minha maçã de Junho e a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar.
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar."

Desafios

Faz hoje precisamente quatro dias que fui DESAFIADA. Assim mesmo, tal e qual como se lê, com letra bem maiúscula, a puxar-me para fora de mim.
Gostei da sensação. Entre o brilhozinho nos olhos e o frio a percorrer-me o corpo na ânsia de um desconhecido que fascina, decidi que vou ter medo, que vou dar o salto no escuro, que vou arriscar.
Com a certeza de um Palma a consolar-me..

"Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar"

3.8.04

I Giorni


Esta manhã fui comprar um presente de aniversário com quase nove meses de atraso. Um cd bellissimo de um compositor italiano chamado Ludovico Einaudi. Ofereci-o a mim mesma há pouco mais de um ano, depois de uma aventura radiofónica na minha querida Classic FM, que durante meses me deu a conhecer as melodias e não me disse o nome do compositor.
Por terras Lusas, a Fnac tem apenas um disco à disposição: Le Onde.

Lake District


Com vista sobre o lago Windermere e um tempo fantástico, apaixonei-me por este canto do mundo que vale a pena visitar. Do absolutamente romântico aos desportos radicais, passando pelos sossegados passeios a pé ou de bicicleta, o Lake District é, indubitavelmente, um lugar mágico. Aconselho Ambleside como ponto de partida. (Bed and Breakfast's q.b.e um restaurante italiano muito charmoso: Zeffirelli's.) Se o carro for uma opção, sigam até à Grizedale forest para uma tarde bem passada no cimo das árvores... Go Ape!