25.12.06

HISTÓRIA ANTIGA


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga

14.12.06

3.12.06

película aderente

Só precisas de ser tu para me arrancares um sorriso.
O resto é invólucro à prova de nada.

19.11.06

laços

Repito a data: 19 de Novembro de 2006. O dia em que o abraço apertado se adiou umas semanas. O dia chuvoso em que um telefonema me deixou a sorrir e a sonhar com os vossos sorrisos.

7.11.06

A cor dos dias

Vê-se de dentro para fora. Chega mansa, silenciosa e nem sempre acompanha os tons do céu. Hoje não é um dia arco-íris. É dia de trancar em mim a música agarrada às últimas gotas de azul. De sonhar luz e estar aí contigo.
A cor dos meus dias, ainda que perceba de harmonias e desvaneça apenas quando a distância não deixa ver claro, será eternamente indefinida.
Sem medos e sem vergonhas.


22.10.06

al dente

Deixou-se engolir pelo prato-mais-olhos-do-que-barriga enquanto olhava pela janela e pensava que ou os domingos ali eram tão cinzentos como os outros dias, ou estava a ter sérias dificuldades em manter este ódio visceral ao primeiro dia da semana.
Rodou o garfo devagar e deixou cair os olhos, em jeito de azeitonas pretas a enfeitar o queijo parmesão.
No fim, resolveu que a metáfora do dia era encarar a vida como uma bolonhesa.

11.10.06

lugar comum:

Antes chuva lá fora do que chuva cá dentro.

(Desaguar tornou-se um exercício tão difícil!)

30.9.06

promessa

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade


21.9.06

verbo ter

1. Tenho medo da solidão ainda que precise muito de estar sozinha.
2. Tenho cócegas no corpo todo... mas nego sempre.
3. Tenho manias de filha única.
4. Tenho vontade de ser abraçada umas 10 vezes ao dia.
5. Tenho um sentido de humor peculiar.
6. Tenho sempre saudades de alguma coisa.

a menina da Irlanda responde ao desafio do lado de cá do frasco, que é onde estas coisas se guardam!

16.9.06

visões

Mar e magnólias no caminho de todos os dias.

9.9.06

elegia

São oito e meia da manhã e está frio. Os meus pés sabem de cor o caminho. O coração ainda não.
A costumeira lágrima facil. Olhar à volta e sentir que o novo se entranha, agarra-se à pele que traz vestidas outras roupagens.
Ouço Sigur Rós. Tenho saudades. Tenho medo. Tenho tanto que fazer!
As tuas palavras no abraço apertado. Encontrar-me... Encontrar-me... Encontrar-me...

3.9.06

São dois braços, são dois braços... lá diz a canção repleta de mimos e surpresas e sorrisos tais que assim é muito mais difícil dizer adeus!
Ainda que seja até já ou até logo, ainda que vos tenha por perto no saber-vos comigo...
OBRIGADA por tanto (a)Mar!

31.8.06

de amor se faz amor
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada.
mais.

Ernesto de Melo e Castro

18.8.06

presente

Tenho mais um dia e mais um ano de vida. Tenho o coração cheio. Tenho vontade de partir. Tenho a certeza de que vou ficar.

Deixo a porta aberta...

13.8.06

midsummer's day nostalgia

"No fundo, se o Principezinho se deixou morder pela serpente é porque se sabia destinado a um jardim de estrelas."

in Pública 13.08.06

11.8.06

As últimas películas:

- Piratas das Caraíbas II (muitas noites a sonhar com polvos, lulas, mexilhões e outros que tais...)
- Casa da Lagoa (uiuiuiuiuiui...)
- Miami Vice (sem flamingos cor-de-rosa melhorou substancialmente, mas...)
- Super-Homem (já agendado!)

Enfim, ou o Verão me subiu à cabeça ou isto diz muito sobre o meu actual estado de espírito!

30.7.06

conclusões de um ano (pouco) lectivo:

O 'meio-gás' não é para mim. Produzo pouco, canso-me o mesmo e sinto-me inútil.

Ainda assim acho que mereço uns dias de férias. Vou recarregar baterias e armazenar-me de sol.

26.7.06

caminhos outros

Roubo a deixa a um amigo para contar a novidade:
anda por aí outro blog!
Álbum de fotos, comentário e quotidianos.
Verde como o Sapo Cocas, os olhos da Marianita e os campos da cor do limão.
Verde porque é desta que hei-de apanhar um trevo de quatro folhas.
E porque, decididamente, o mercuriocromo é frasco para outras poções.

16.7.06

Há coisas que não se deixam morrer.
Ainda que nos estilhacem por dentro, são pureza e candura e amor e é impossível tocar-lhes.
Fico a ver. Feliz como te quero ver um dia.
Ainda que longe. Ainda que só parte de mim.
Feliz.
Por ti.

3.7.06

_casa é onde o coração poisa e sorri. o meu e o vosso. aqui ou lá_

28.6.06

(suspiro)

O riso fica nervoso, os olhos piscam mais do que é costume e contemplam o tecto, a dor de cabeça miudinha instala-se a seu bel prazer, as palavras enrolam-se e saem irritadas, o termóstato avaria, as noites são longas demais, os dias não passam e eu sinto-me um verdadeiro ogre da floresta.
Sou 7, sou leão, sou optimista e teimosa e não suporto deixar as coisas andar.
Deixem-me sofrer com o que decido, dormir mal com as minhas escolhas, penar entre o que ganho e perco sem chegar a conclusão alguma. Deixem-me tudo, mas façam-me só um favor: vão a correr apagar a palavra impasse do dicionário!

27.6.06

a ordem natural das coisas

Não existe. É uma fraude, um logro, uma invenção para que deixemos cair a cabeça na almofada e os pesadelos fiquem à porta do quarto. A ordem natural das coisas (porque é simplesmente uma mentira) angustia-nos quando não a percebemos, dá-nos apertos no coração, falta de ar e, em casos graves, alergia. Os dias somam e seguem, únicos, irrepetíveis, memoráveis ou fastidiosos à razão do humor que trazemos colado à pele, e não há ordem natural em nada. As coisas não têm ordem… muito menos nós.

20.6.06

O que será, que será?

...
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
...
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

9.6.06

alter ego

Sou quem quero? Quero-me bem? Faço o que quero? Quero o que faço?
O que é que se faz quando não se faz ideia do que se quer fazer?
O que é que se é quando sabemos onde poisa o coração e não o deixamos voar?
Só sei ao certo que o Teu projecto é bem maior do que a minha vista alcança e que sou hoje menos paciente.
Ainda assim, espero.

5.6.06

nobody made this war of mine

«O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.»


Parei aqui. Página 20. Ainda não tive vontade de continuar. Não vi futuro. Nem sereia andante nem linguagens outras.

31.5.06

palimpsesto ou um ganda bolo de bolacha

Baralhar e voltar a dar ou ganhar o acumulado?

Entre a erudição e a culinária venha o diabo e escolha.
Tenho dito.

25.5.06

Vincent Van Gogh


A dois passos do futuro tive febre.
A dois passos do futuro ofereceram-me uma balança e disseram-me:
- Toma, é teu.
A dois passos do futuro suspirei pela chave dos sonhos.
A dois passos do futuro quis que o presente continuasse por aí fora.

22.5.06

crime

Roubo-te o olhar para que a tua cegueira seja física.
Para que possas finalmente ler o meu amor à superfície da pele.

19.5.06

da minha vidinha...

... ainda que isto não interesse nem ao menino-jesus e que seja só um pretexto para escrever qualquer coisa e justificar a falta de posts:

Estou a viver temporariamente no campo.
No campo só há net do outro lado da rua.
No campo ainda não há telefone fixo porque as linhas estão sobrecarregadas.
Venho à urbe para trabalhar e inspeccionar as obras de minha casa.
Quando não estou a dizer mal da vida porque isto de fazer obras é um tremendo arejar da carteira... ando a correr casas de ferragens em busca de dobradiças de leme de 3 polegadas e a deixar cair varões de metal em cima dos dedinhos dos pés.

I WILL SURVIVE!

beijos e abraços

15.5.06

os meus dias começam aqui

_nas surpresas_nas pequenas coisas_nos sorrisos_no silêncio_ na amizade_ na dor_
_no caminho_nas certezas_ na descoberta_

Deixar-Te, simplesmente, permanecer.

11.5.06

não há direito!

Você é A Cabana

Você é o típico melancólico, que gosta de pensar e repensar na vida. Romântico, adora cenários intimistas e pela-se pela doce amargura de um coração partido.

'Pela-se pela doce amargura de um coração partido'?

Eu até fiquei gaga...

DESCULPELIÁ... IMPORTA-SE DE REPETIR?

10.5.06

inside_out

Olhei, senti, conversei. Ri-me muito, diverti-me mais. Encostei a cabeça a pedir colo, escutei, desabafei, fui.
Percebi-me no meio do alvoroço.
Quando se sabe bem o que se quer da vida, a inconsequência passa a ser uma brincadeira de crianças: ao fim de umas quantas vezes, deixa de ter graça... e eu não sei mesmo viver sem humor.

8.5.06

_tenho a cabeça a andar à roda_


(who cares?)

2.5.06

Sheer simplicity

What is there to know?
Entre os quilómetros via ar ou via terra, os vossos sorrisos são tudo.

22.4.06

menina flor


Quando o coração enraíza noutras vidas é sempre mais difícil manter a clareza do olhar.
Último dia em Macau. Passo a manhã no centro, a deambular com o mapa tão fechado como as lojas que antes das dez não têm vida. Divirto-me a adivinhar que figuras de origami estão no meio da calçada portuguesa, mas não é óbvio. Aliás, nada aqui é óbvio. Roubo a expressão para confessar que esta terra me ficou encravada. Encravada entre viagens, encravada entre o que não consigo perceber e entre o que não tenho o direito, sequer, de comentar.
Da casa que é Taipa vejo a ponte da Amizade e se abrir a janela, para além dos montes, dos prédios e do mar, invade-me a bruma que não deixa estas paragens e o barulho contínuo de obras. Conquista-se terreno para mais um casino. Um por esquina, porta sim, porta sim. Néons que nos convidam a entrar no Louvre ou no Greek Mithology convivem pacificamente com Estabelecimentos de Bebidas, Casas de Sopas de Fitas e Farmácias Populares. As ruas são um frenesim constante de lambretas, última moda em versão imitação e crianças de uniforme a caminho do colégio.
Páro no Caravela para um café. As empregadas filipinas atendem-me em português. No consultório do Dr. Yip, a placa diz médico dentista e há um crucifixo por detrás do balcão. Almoçamos numa tasca tailandesa em que só é possível comunicar por gestos e uma volta de taxi pode começar por inglês, passar a mandarim, tentar o cantonense e acabar de dedo apontado no mapa.
No caminho até Coloane os doze signos do horóscopo chinês povoam o meio da avenida. Procuro a 'minha' serpente e tenho pena de estar demasiado escuro para não a conseguir fotografar. Vim até cá na primeira noite e hoje apeteceu-me regressar. Gosto deste lugar. Traz-me paz. A paz que às vezes sinto faltar a quem se procura num sítio que parece não fazer sentido. A paz que os sítios emprestam apenas e que não nasce dos excessos... nem do optimismo irrealista, nem do pessimismo exagerado. A paz que vem de dentro.
No cimo da colina a deusa A-Ma olha por nós, maternal e distante de tudo o que vai enchendo o horizonte.
Até já.

17.4.06

cidade dos anjos

46 graus.
Por todo o lado cheira a flores. O jasmim sente-se mais porque há colares pendurados nos táxis, nas estátuas e nos pulsos de alguns turistas. Continuo a querer assimilar tudo: há pulmões de verde entre os arranha-céus, templos a cada esquina e a música de fundo é o som inconfundível dos túk-túks a acelerarem por entre o caos do trânsito. Vêem-se fotografias do rei por toda a parte, à mistura com milhares de cartazes eleitorais (close-ups terrivelmente kitsch!) espetados nos canteiros de flores das ruas.
Três dias de passagem de ano significa três dias de água. Dentro da mochila enfio o telemóvel e a máquina-fotográfica em sacos plásticos e deixo-me ir. É um misto de carnaval do Rio com qualquer outra coisa que desconheço. É feriado e as ruas estão literalmente inundadas. Carrinhas de caixa aberta cheias de gente bem-disposta em guerras de água. Baldes que nos acertam ao atravessar a estrada e que com este calor sabem mesmo bem. Alegria por todo o lado.
Os mundos de Bangkok opõem-se sem chocar. Nunca presenciei tanta delicadeza e afabilidade tão genuínas e entendo agora por que razão apelidam a Tailândia de terra dos sorrisos: mãos postas, uma pequena vénia e um sawadika incrivelmente doce.
Os mercados são uma paleta de cores entre frutas que nunca vi, sedas e contas de todos os tamanhos e feitios.
Na travessia do rio, para além do mercado flutuante que entrevemos apenas nas vendedoras que se aproximam do nosso barco, acena-nos um outro universo de casas sobre estacas.
Entramos descalços nos templos de Wat Po e no de Wat Phra Kaew - o palácio real. Perante a imagem de Budha repetimos o ritual da água: flor mergulhada numa enorme taça de prata e atirada para trás da cabeça, num gesto simbólico de renovação que me parece fazer tanto sentido neste tempo de páscoa cristã.

Khop Kun Mak Kha!

16.4.06

em segredo

May the road rise up to meet you.
May the wind be always at your back.
May the sun shine warm upon your face,
and rain fall soft upon your fields.
And until we meet again,
may God hold you in the palm of His hand.

Hoje, mais do que nunca, precisava de renascer conTigo, de ser corajosa e verdadeira. De ter a honestidade de coração que me fizesse agarrar-te as mãos e dar-te num sorriso todo o amor que sinto. Gratuito, sereno e sem medo.

10.4.06

muito


É a sensação mais forte que tenho: tudo muito.
Hong Kong é imensamente grande, colorido, luminoso, cheio. Custa a respirar de tanta humidade e poluição, e andar pelas ruas em jeito de passeio é um hábito estranho. Gente por todo o lado, a vir de todos os lados, com pressa, a falarem muito alto, a rirem. Gente de braço dado, estatura mediana, novos e velhos saídos de um catálogo de moda de um outro planeta. Cruzo-me com um número de ocidentais suficientemente grande para não me sentir totalmente alienígena, mas, ainda assim, tenho os olhos cansados de querer absorver e perceber tudo. O encanto dos símbolos e caracteres perde-se quando nada nos é acessível. Grande maravilha é a linguagem e o entendermo-nos uns aos outros. Rio-me de cada vez que tentamos uma conversa em inglês porque nem isso consigo perceber. Solicitude acima de tudo. Sorrisos de orelha a orelha. Gente prestável e atenciosa que me esforço por não imaginar dentro das gaiolas cinzentas de centenas de andares que estão por todo o lado. Volto a insistir na crueza que é a luz do dia. Tudo o que é feio se amplia na fronteira do contraste: velhinhas curvadas a empurrarem carrinhos-de-mão atulhados de cartões atravessam a estrada frente à sede do banco da China, milhares de mulheres filipinas na lufa-lufa diária de quem é fada de outros lares a regatearem migalhas sob o olhar complacente dos leões de pedra do HSBC. Tudo isto me confunde.
Hong Kong é uma máquina movida a dinheiro: pelo excesso, pela falta e pela mistura de sentimentos que provoca. O que à primeira vista confrange de tão exagerado ganha uma aura quase poética quando a noite mostra apenas contornos de luzes num cenário de montanhas à beira-água. No ferry para Kowloon a vista é tão deslumbrante como do eléctrico assustador para o Victoria Peak. Os cheiros somam e seguem. No mercado nocturno os pregões não variam para além de um 'cheap cheap', 'for you $', 'hand made' ou '100% silk'... Os mais velhos, sentados ao fundo, observam as tentativas de comércio de quem já os substitui no mester. Trazem um olhar vazio e cansado. Apetece-me ficar ali sentada com eles, longe como eles de todo aquele bulício, a ouvir a flauta-cabaça da senhora da trança que nos ofereceu o sorriso mais bonito da noite.

6.4.06

passagem_pesakh_páscoa

Que o seja, de facto, para todos.
Até já...


Cristo de San Juan de la Cruz, Dalí

casa_tu_sorriso_coração_abraço

Percebi hoje, quando contei sete riscas nas cores do arco-íris. Seja onde for, seja quando for, é disto que me faço.

1.4.06

(idades)

Nas últimas duas semanas tenho visto a minha vida 'a retalho'. Desarrumei memórias fundas e percebi que há recordações impossíveis de trancar numa gaveta.
Não sei se é só do cansaço, mas sinto-me particularmente frágil.

30.3.06

compassos

Perguntou-lhe se gostava daquela música.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça, em jeito de assentimento doce.
Deixaram-se ficar até ao fim, um dentro dos olhos do outro.
Ela sorria e desarmava-o.
Ele ripostava com humor, e ela rendia-se.
Não havia mais ninguém: ele era nela e ela era nele.

27.3.06

construção

É tão bom sentir-vos felizes!
Só esta manhã foram 3 rolos de fita-cola e 8 metros de toalhas de papel.
O cobertor cor-de-rosa está estendido no meio do chão da sala e já voltei a ligar o aquecedor, que a casa vazia assemelha-se à Sibéria.
Gosto de ouvir o som do eco, do estuque que salta atrás de cada prego, do desenho dos quadros que agora apenas recordo, deste sem nada que enche.
Sei que aquilo que arrumo vos é precioso porque faz parte da vossa história, e que devagarinho, entre risos e turras, nos vamos livrando a três do acessório.
É tempo de viajar. A muitos destinos, a muitas mãos, a muitos tempos e motivações.
O meu tempo (tantas vezes refilado!) é vosso, e o vosso amor, maiusculadamente INCONDICIONAL, não vou deixar que procure outra morada.

23.3.06

20.3.06

a oitava escolha

20 de Março. Primeiro dia da candidatura inteligente para os candidatos das letras J a Z, segundo a explicação do site do ministério.
Sinto-me como o boneco aqui ao lado: a querer um rumo e sem conseguir dar o próximo passo. Já contei kms, pesei vantagens, medi prós, contras, distâncias de mapa e solidões que me assustam. No meio da incerteza a que já me devia ter habituado, tenho medo mas sinto-me inevitavelmente desafiada e tenho aquela vontade tão Joana de mandar tudo às urtigas e seguir por onde o coração ditar. O mesmo coração que acaba sempre por decidir tudo.
Acabei ontem o dia a ouvir que a loucura de quem O segue é acreditar que o grande cabe no pequeno. Serenei. Já gostei mais de tomar decisões do que agora (uiuiuiui que esta conversa começa a soar-me familiar!) mas preciso muito de sentir que se levantar âncora, trago comigo todas as amarras.

17.3.06

decisões

Gozar as presenças.
Gerir as ausências.
Saiba eu aplicar a fórmula mágica e poderei finalmente dormir em paz.

16.3.06

nº 365

Se as palavras somadas fizessem dias hoje era o meu aniversário.
Há dias que metem mais medo do que as palavras.

14.3.06

Acordar todos os dias passara a ser orgânico. Fugia do futuro, queria apagar o passado e infelicitava-se num presente repleto de negações: invisível, incoerente, insegura, incapaz, inútil, incompleta, imperfeita, incompetente, incerta... inexplicavelmente cansada.
Apeteceu-lhe refugiar-se no choro manso que a acalmava - não teve lágrimas.
Lembrou-se dos exercícios de relaxamento e deitou-se na cama - não conseguiu respirar.
A dor era demasiado funda para todos os remédios conhecidos. Valeu-lhe, naquela noite, estar pregada no céu a lua cheia mais bonita que alguma vez se lembrava de ter visto.

10.3.06

running to stand still

Arrepio-me sempre que ouço estes acordes. Versão original, ao vivo, cover, o que for. Arrepio-me sempre porque sei exactamente o que ouço, eu, Joana.
Corro, fico, páro, volto a correr. Sei bem que o todo é muito mais do que a soma das partes. Arrisco?

9.3.06

rewind_forward

De novo pequenina. Em biquinhos dos pés e a puxar-te pela manga do casaco. Olhos no alto, húmidos de tanta vontade.

- Quero contar-te um segredo! Olha, ouve-me, é um segredo que tenho para ti... Não queres saber? Não queres ouvir? Já não tenho medo, sabes? Posso contar? Deixas? Ouves? Sem medo?

7.3.06

receita do dia

Estilo Houdini.
Estilo vou ali comprar cigarros.
Estilo viagem interminável.
Ontem adormeci agarrada a uma botija de água quente e ainda assim foi dureza fechar os olhos.
Hoje está um tempo de meter dó e não posso levar a botija para a rua.
Abracadabra, pós de perlimpimpim e já está: this is a vanishing act!

PLIM!

4.3.06

bola de vidro

Chega-te só um bocadinho para lá, só o suficiente para eu me aninhar em ti e ficarmos em paz, a ouvir a chuva e a certeza de um amor maior.

3.3.06

Praia da Luz, Agosto 1995
claro_escuro
presente
tu

2.3.06

- + -

No dia em que me transformar em quem tanto procuras morre o meu amor por ti.

1.3.06

a sério

Para os próximos 40 dias e ao jeito inaciano do pouco, pequeno e possível:

- dar sentido a tudo o que faço, especialmente às coisas mais insignificantes, tornando-as sagradas e percebendo que esse é o verdadeiro sacrifício.

- separar, no dia-a-dia, o essencial do acessório, e ganhar liberdade de coração.

Conto conTigo!

27.2.06

inconsequente

Ele: Quem é você?
Ela: Adivinhe, se gosta de mim

Os dois: Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

Ele: Quem é você, diga logo
Ela: Que eu quero saber o seu jogo
Ele: Que eu quero morrer no seu bloco
Ela: Que eu quero me arder no seu fogo
Ele: Eu sou seresteiro
Poeta e cantor
Ela: O meu tempo inteiro
Só zombo do amor
Ele: Eu tenho um pandeiro
Ela: Só quero um violão
Ele: Eu nado em dinheiro
Ela: Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte
Não sei mais dançar
Ele: Eu, modéstia à parte
Nasci pra sambar
Ela: Eu sou tão menina
Ele: Meu tempo passou
Ela: Eu sou Colombina
Ele: Eu sou Pierrot

Os dois: Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixe a festa acabar
Deixe o barco correr
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer
O que você pedir
Eu lhe dou
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser
Seja você quem for
Seja o que Deus quiser

Chico Buarque

24.2.06

- Para andares a escrever assim deves andar a fumar umas berlaitas... só pode!

(comentário masculino acerca dos últimos posts deste frasco, seguido de gargalhada e a certeza de que os meus amigos são os MÁIORES!)

23.2.06

don't say that later will be better

E mais uma vez o frágil se faz forte e se deixa ir.
Desanima entre sorrisos e cumplicidades mas reage no vazio.
Sobrevive na espera. Nuns dias a que sempre alcança, noutros a que desespera.

22.2.06

do silêncio

Mais do que estar calada: fazer por escutar.

17.2.06

em loop

- Sabes...
- Sei...
- Tu sabes?
- Sei.
- Eu sei que tu sabes...
- E eu sei que tu sabes que eu sei...
- E agora?
- Agora? Não sei...

16.2.06

assumo que sou uma menina mimada...

...mas é tão bom estar um bocadinho-inho-inho doente e receber uma delícia de livro de quem nos conhece como a palma da mão!

Conseguiu o impossível: criou raízes à beira-mar e fez-se estátua de sal. Pedacinhos incontáveis, semi-transparentes, à espera da onda que os diluísse na plenitude do horizonte.

13.2.06

(Penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente

o que o medo quer)


Alexandre O'Neill

11.2.06

introspecção

Sou tão mais feliz quando abro o coração às pequenas coisas!

10.2.06

eu ninguém

Não sei como te chamas. Há três meses que me sorris quando passo a porta da enfermaria, quando vou ver os animais novos do teu pequenito, agora só a fingir porque os que tens em casa trazem bicharocos que lhe podem fazer mal e vê-los, só ao longe e nos poucos fins-de-semana que daqui te escapas.
Sei o nome do teu filho. Sei que não te podes afastar para lá do que a vista alcança e que tens medo da viagem do próximo mês. Sabes o quanto te admiro?

9.2.06

adivinha







Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente de infinito a infinito
Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
"Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim...!
Diz a outra:
"Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!"
Não se dando por achada
Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.

José Fanha

8.2.06

não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples… não compliques o que é simples…

6.2.06


Estás do outro lado do mundo, do outro lado da linha, do outro lado das coisas e continuas a ler-me à transparência.

apneia

Nightswimming deserves a quiet night.
The photograph on the dashboard, taken years ago, turned around backwards so the windshield shows. Every streetlight reveals the picture in reverse. Still, it’s so much clearer. I forgot my shirt at the water’s edge. The moon is low tonight. Nightswimming deserves a quiet night. I’m not sure all these people understand. It’s not like years ago, the fear of getting caught, of recklessness and water. They cannot see me naked. These things, they go away, replaced by everyday. Nightswimming, remembering that night. September’s coming soon. I’m pining for the moon. And what if there were two side by side in orbit around the fairest sun? That bright, tight forever drum could not describe nightswimming. You, I thought I knew you. You I cannot judge. You, I thought you knew me, this one laughing quietly underneath my breath. Nightswimming. The photograph reflects, every streetlight a reminder. Nightswimming deserves a quiet night, deserves a quiet night.



Desejaram-lhe um ano de muitos mergulhos. Todos os que ela prometera naquela madrugada e todos os que não sonhava ainda dar.

3.2.06

No final do primeiro acto entregaram-lhe um ramo de camélias. Fez uma vénia profunda, demorou-se a fixar cada pormenor da sala e saiu.
Ninguém deu conta do desaparecimento súbito porque a chegada fora igualmente repentina. Aí vem a tempestade! - diziam-lhe quando se aproximava, e a candura habitual daqueles olhos crepitava na ânsia de se entregar ao palco.
Era a primeira vez que abandonava um projecto no ensaio geral, mas temia que aquele não fosse o espectáculo da sua vida.
Desceu as escadas sem pressa. Libretto debaixo do braço e a cabeça a fervilhar de ideias, que um dia, quem sabe, iriam compor o final da sua história.

1.2.06

amor transparente

(há dias em que me sinto tão cansada de andar sempre em pézinhos de lã...)

30.1.06

eu

Gosto das coisas de mansinho
Gosto de cumplicidades pequeninas
Gosto de descobertas
Gosto de ser surpreendida
Gosto da franqueza das palavras

e mais não sei...

27.1.06

Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Troco o silêncio e a oração pela linha do horizonte.
Volto já.

25.1.06

microfilme

Primeiro davas-me um abraço.
Depois logo se via.

22.1.06

madalena

Porque hoje é hoje e sou eu quem não tem palavras.

21.1.06

da vida que hoje daqui se vê

Situation number one,
it's the one that's just begun
but evidently it's too late.

Situation number two,
it's the only chance for you
it's controlled by denizens of hate.

Situation number three,
it's the one that noone sees
all too often dismissed as fate.

Situation number four,
the one that left you wanting more
it tantalized you with its bait.

20.1.06

toda a gente sabe (2)

...que o reverso de uma caixa tem sempre informações muito úteis!

Eram 160. Estivémos uma hora entretidos a montar as paredes da escola e a descobrir quem estava por detrás de cada uma das janelas. Estava a ser bestialmente difícil e eu sem perceber porquê. Quando resolvi dar mais uma vista de olhos ao desenho, fez-se luz:

'faltam pessas do pasele'

18.1.06

Quando as palavras que ouvires forem apenas um intervalo no silêncio que habita em mim, saberás que te fala o meu coração.

17.1.06



Uma nova amiga.

Saiu hoje da estante porque me lembrei de ti.

Falta-lhe o azul dos teus olhos, mas tem a vaidade boa de quem se soube eternamente amada.

silenciadores

Chamar nomes às coisas. Perigoso. Torna-as mais reais do que às vezes deviam ser. A partir daí, as coisas nomeadas colam-se à pele e entranham-se em nós.
O que a noite tapa não resiste à luz crua de um novo dia, e ainda bem que assim é: a casa quer-se sempre arrumada. Haja o que houver.
Chamar nomes às coisas. Terapêutico.
Só não me posso esquecer de ir comprar um chá de morango que te deixe dormir.

16.1.06

Chego tarde porque hesito vezes sem conta em bater-te à porta.
Perco-te todos os dias porque sei exactamente onde te posso encontrar.
Agora que estou em casa, que lancei amarras, por que razão insistes em plantar de novo a semente da partida?

15.1.06

É meio do dia. Metade-espelho-metade porque hoje há chuva lá fora.
Da minha vida só quero este meio caixote que ainda agora enchi, ou talvez menos de meio e assim ocupas tu a tua metade e a mais de metade de mim.

12.1.06

uma história simples

Dizem os sábios, os músicos e os estudiosos das coisas invisíveis, que quando um elefante entra numa loja de porcelanas, os estragos são irreparáveis.
Depois do susto de ver semelhante bicho a invadir território privado começa o chinfrim: aqui d'el rei que me partem a loiça toda! Escaqueiram-me o estaminé e eu nem seguro tenho!
Passado o espanto inicial, choram-se as perdas, inventariam-se os danos e apanham-se os cacos. Há peças que vale a pena salvar, que nos deixam de nariz colado ao chão à procura do último pedacinho em falta, mas a grande maioria segue directamente para o caixote do lixo, porque apesar dos pesares, estava na loja há tanto tempo e nunca alguém a tinha olhado duas vezes.
Com a casa ainda em rebuliço, tapam-se as janelas com grandes lençóis brancos, e na porta de entrada (já com uma fechadura nova) pendura-se o letreiro: 'Fechado para obras de remodelação'
De fora ninguém percebe bem a azáfama que por lá vai: varre daqui, esfrega dali, encera o soalho, sacode as teias de aranha, e se deixássemos entrar mais luz cá dentro? Humm... uma planta não ficava aqui mal...
Os 'da casa' ajudam nas pinturas, dão sugestões, trazem chá quente e velas perfumadas.
Passado algum tempo, dentro daquelas paredes respira-se vida. Da loja de porcelanas já ninguém se lembra.

9.1.06

sempre a abrir

Bem moídas, da interpretação epifânica:
- a consciência de haver alguém com quem posso fazer as pazes nos próximos dias (leia-se ficar em PAZ, assim bem maiusculada)
- a minha verdade e a verdade dos outros terem todo o direito à diferença
- a cedência não ser má, desde que implique profunda aceitação do outro e não um 'desta vez leva lá a bicicleta que para a próxima levo eu'

Posto isto, é ver-me de mangas arregaçadas, que começar um ano assim é obra!

8.1.06

inside out

Não gosto do conceito de invólucro.
Asfixia-me, paralisa-me, impede-me de desrolhar o frasco quando preciso de respirar.
Deve ser por isso que ainda não foste capaz de me perceber para além da camada à superfície.
Ainda assim, prefiro a tua falta de esforço a ter que inventar um cantinho de abertura fácil.
Bem sei que sou maluca, mas antes esgotar-me em tentativas e erros do que entregar-te o manual de instruções.

6.1.06

toda a gente sabe (1)

Pela boca da Sofia, 4 anos inteirinhos, enquanto pintava os olhos do sol de cor-de-rosa (o lápis mais giro porque é brilhante):
- Sabes Joana, eu sou muito forte porque já ando no bibe vermelho e para o ano caem-me os dentes...
(arregalei os olhos...)
- Pois, os dentes caem sempre todos no bibe azul!

A minha agenda para 2006 não é um Moleskine e tem anjos ao virar da página.
O bom de ser um tamanho XL é que cada V que escrevo ganha logo o estatuto de tarefa hercúlea dificilmente alcançável.

(já lá estão 5!)

3.1.06

someday, sometime, somewhere

Desta vez não se esquivou à resposta. Sorriu desajeitada e deixou que as palavras saíssem.
Depois, foi tempo de perceber que assim se sentia feliz, que havia espaço na sua vida para o tanto amar silencioso.
Despediu-se com o costumeiro 'até já' e saiu de mansinho.
O mar que fez então nascer dos olhos era mais salgado que o horizonte. Ainda assim, antes de mergulhar, deixou a chave debaixo do tapete.

1.1.06

o mergulho prometido

Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.
Mia Couto

A quem está por perto, a quem está longe, a quem vai chegar neste ano novinho em folha, apenas um desejo-certeza-propósito: só convosco vale a pena.